EXPERIÊNCIAS EM GESTÃO DE MÉTODOS PARTICIPATIVOS COMO INSTRUMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DE ATIVIDADES TURÍSTICAS RESPONSÁVEIS

EXPERIENCES IN PARTICIPATIVE METHODS MANEGEMENT AS A TOOL FOR THE DEVELOPMENT OF RESPONSIBLE TOURISM ACTIVITIES

Maria Claudia Rodrigues e Luciane Drescher

RESUMO
O presente estudo apresenta as experiências que vêm sendo desenvolvidas pela Cooperativa de Formação e Desenvolvimento do Produto Turístico - COODESTUR , com o uso de Métodos Participativos aplicados à projetos de turismo em comunidades rurais, em especifico no Programa de Capacitação de Agricultores Familiares Turismo e Agroecologia no Alto Uruguai. Neste trabalho são tratadas as ferramentas, estratégias e os resultados qualitativos gerados pelo Programa desde o seu inicio até o presente momento. Através da gestão em métodos participativos, a COODESTUR busca contribuir para que os beneficiários do Programa se tornem sujeitos de transformação no processo turístico, recebendo visitantes e comercializando roteiros e produtos agroecológicos através de atividades turísticas responsáveis.

Palavras-chave: gestão de métodos participativos, planejamento do turismo, turismo responsável, agroecologia.

ABSTRACT

This article presents a study of the experience that has been realized by COODESTUR - Cooperative for the Creation and Development of Tourist Products - based in the use of Participative Methodologies applied to projects evolving tourism in rural communities as specifically in the Program for Familiar Farmers: Tourism and Agroecology in Alto Uruguai. This work also introduces some of the tools, strategies and qualitative results generated by the Program from its beginning up to the present moment.
It is through the management of participative methods that COODESTUR aims to contribute for these people who beneficiate from the Program to become actors in the process of tourism, as they receive visitants and commercialize their products in a responsible way.

Key words: participative methods management, tourism planning, responsible tourism, agroecology

INTRODUÇÃO

Este trabalho relata experiências em gestão de métodos participativos aplicados ao Programa de Capacitação de Agricultores Familiares - Turismo e Agroecologia no Alto Uruguai. O Programa está sendo desenvolvido na região do Alto Uruguai Catarinense e Gaúcho, em comunidades atingidas pelo Lago formado pela Barragem de Itá.
A responsável pelo Programa é a Cooperativa de Formação e Desenvolvimento do Produto Turístico - COODESTUR. A entidade vem realizando ações na região desde 2001 em parceria com a Associação dos Municípios Lindeiros à Barragem de Itá - AMULBI, no diagnóstico e desenvolvimento de diretrizes para o fortalecimento da atividade turística regional. Atualmente fazem parte da AMULBI os municípios de Aratiba, Três Arroios, Mariano Moro, Severiano de Almeida e Marcelino Ramos no Estado do Rio Grande do Sul, e Itá, Arabutã, Seara, Concórdia, Peritiba, Piratuba, Ipira e Alto bela Vista no Estado de Santa Catarina.
A escolha pelo uso de métodos participativos no trabalho com comunidades rurais foi feita com o propósito de que fosse proporcionado, desde o início da construção da proposta, a inserção gradual do grupo beneficiário nas ações desenvolvidas e na busca pela autonomia e auto gestão. Partindo deste princípio se deu a construção coletiva do Programa, através da parceria da entidade proponente com organizações e lideranças locais.
A proposta foi aprovada na Chamada para Projetos ATER/Capacitação 2005 do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, e viabilizada pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF.
A Política Nacional de ATER - Assistência Técnica e Extensão Rural, (2003: 23) traz o seguinte conceito para formação e capacitação, sendo:

"Processo de avanço do conhecimento e da consciência, capaz de despertar e fortalecer habilidades, dinamizar o saber local apropriado pelos atores envolvidos, criar novos conhecimentos e disseminar informações úteis para os objetivos de cada grupo social, de modo a permitir mudanças de comportamento e de atitude a partir da leitura crítica da realidade concreta."

Este foi um dos conceitos norteadores na realização deste Programa de Capacitação. A partir daí foram estruturadas ferramentas simples e práticas que auxiliaram na construção coletiva de conceitos, e na busca de atividades turísticas que valorizem e promovam a agroecologia, oferecendo benefícios e minimizando impactos nas comunidades locais.
Portanto, o objetivo deste artigo é demonstrar o uso de Métodos Participativos aplicados à projetos de turismo em comunidades rurais.
A metodologia utilizada para alcançar este objetivo foi a pesquisa exploratória, a partir da pesquisa de dados secundários, revisão da literatura sobre o tema e posterior reflexão crítica.
Estruturalmente, este trabalho é iniciado com uma breve fundamentação teórica, na qual são abordados aspectos relevantes à compreensão do tema discutido. Em seguida, é apresentada a metodologia utilizada na COODESTUR, e por fim, as conclusões do estudo, bem como limitações e estudos futuros.

1. A REGIÃO DO ALTO URUGUAI

A Região do Alto Uruguai está situada entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, formada por uma área de 2.915 Km2 com 129.583 habitantes segundo Censo realizado em 2000. Os municípios apresentam populações predominantemente rurais, que têm na agropecuária sua principal fonte de renda.
Com a construção da Usina Hidrelétrica de Itá, muitas famílias foram atingidas pelas águas que formaram um lago de aproximadamente 141km². A este respeito a entidade proponente do projeto, COODESTUR (2006) afirma que:

"Foram atingidas pelas águas cerca de 3.219 propriedades rurais, num total de 36 núcleos rurais e 3.560 famílias. Destas, 2.733 (...) partiram para os núcleos urbanos, deixando assim o trabalho no campo. E 827 foram reassentadas em zonas próximas a sua localização original, continuando suas práticas de agropecuária."

A região sofreu impactos socioeconômicos com a construção da hidroelétrica. Considerando esses impactos, o Programa de Capacitação de Agricultores Familiares apresenta uma alternativa às famílias, possibilitando agregar valor a produção, valorizar a cultura, diminuir o êxodo rural, fortalecer os laços da comunidade, vitalizar os costumes típicos, canções, danças, comidas, entre outros.
A região beneficiária deste Programa caracteriza-se pela predominante agricultura familiar, com mais de 400 famílias de agricultores produzindo hortifrutigranjeiros orgânicos. A forma de comercialização é feita principalmente através da venda do produto in natura em feiras.
De acordo com a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural,(2003: 22) considera-se dentro do conceito de agricultura familiar:

"Os trabalhos em nível de unidade de produção são exercidos predominantemente pelas famílias, que mantém a iniciativa, o domínio e o controle do que e como produzir, havendo uma relação estreita entre o que é produzido e o que é consumido, mantendo um alto grau de diversificação produtiva, sendo alguns produtos relacionados como o mercado."

O trabalho desenvolvido pela agricultura familiar valoriza a produção e o consumo local, diferente da chamada agricultura "industrial". As famílias são responsáveis pelo cultivo de alimentos que garantem boa parte do abastecimento das cidades e sua subsistência, e este último é um dos fatores sociais que fazem com que este tipo de agricultura mereça importância e destaque frente à outros, que apenas visam o lucro e a capitalização de grandes empresas.
A relação próxima da família com a terra e a continuidade de culturas e tradições comunitárias faz com que a agricultura familiar ofereça elementos favoráveis ao desenvolvimento de atividades de turismo rural.
Na agricultura ecológica ainda encontramos uma maior preocupação por parte das famílias em manter e enriquecer o meio ambiente onde estão inseridos, favorecendo atividades de vivência em meios naturais, chamadas também de turismo agro ecológico.
Existe uma demanda crescente na região por produtos agroecológicos. As feiras municipais hoje já não conseguem abastecer o mercado local. E como resultado do trabalho de sensibilização para o cultivo ecológico feito por agricultores e entidades de apoio como o CAPA (Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor) se percebe o aumento na busca de visitas a estas famílias e propriedades.

2 - TURISMO E AGROECOLOGIA NA REGIÃO DO ALTO URUGUAI

Desde 2001 a COODESTUR vem realizando trabalhos na região que permitiram o conhecimento da realidade local, suas potencialidades e necessidades. Primeiro foi feito, em parceria com a Associação dos Municípios Lindeiros à Barragem de Itá - AMULBI - um levantamento dos atrativos e equipamentos dos 13 municípios que na época pertenciam à Associação. A partir deste levantamento foi apontado o Turismo Rural como uma das atividades com maior potencial a ser desenvolvida na região, junto ao Turismo de Eventos e Esporte.
O Turismo Rural compreende atividades realizadas em propriedades produtivas complementares às agrônomas, isto é, o agricultor mantém sua produção agropecuária como prioridade, e o turismo ocupa o espaço de segunda fonte de renda principal. Podemos destacar como exemplo de atividades oferecidas à visitantes: plantio, colheita, organização de sementes, tosquia, alimentação dos animais, caminhadas pela propriedade, banhos de rio, pesca, artesanato, preparação de alimentos, turismo de vivência, entre outros. As atividades são as mais diversas e dependem das características da região em que está sendo desenvolvido o Turismo Rural, assim como da produção ou criação da propriedade.
Portanto as atividades turísticas no meio rural podem ser definidas segundo MACHADO (2005) como "o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade".
Aliada à estas características encontramos as atividades turísticas já consolidadas na região. A oferta de balneários termais está presente em 04 dos 11 municípios que atualmente compõem a AMULBI, e é uma fonte de renda de destaque regional. Este tipo de turismo está associado à saúde, à prática de atividades saudáveis e de alimentação balanceada. O público que normalmente freqüenta os balneários está formado por pessoas sensibilizadas sobre estes temas e com razoável poder aquisitivo.
Assim, buscando aliar recursos existentes e fortalecer as atividades que já são desenvolvidas na região surge a proposta de turismo vinculado à ecologia e à produção familiar e orgânica de alimentos.
Através de uma linha de incentivos do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA inserida no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF foi possível viabilizar esta proposta, que deu origem ao Programa de Capacitação de Agricultores Familiares. O Programa foi aprovado via Edital Federal em 2005 e está sendo realizado na região desde então.
O primeiro desafio foi identificar as famílias que poderiam ser beneficiadas pelas ações do Programa. Através de reuniões com entidades que apóiam a agricultura familiar e ecológica na região, Prefeituras Municipais e Associações de Produtores Rurais, foi possível formar um banco de dados com os nomes de possíveis beneficiários. Foram organizados encontros abertos divulgados pelas rádios e jornais locais, onde foi feita a apresentação da proposta e se iniciou a coleta de informações específicas de cada comunidade. Em alguns casos as famílias foram visitadas pela equipe técnica, no intuito de levar a informação àqueles que não poderiam se deslocar a estes chamados "Encontros de Sensibilização". Nos Encontros foram feitas as inscrições das Famílias interessadas, e as vagas prioritárias para participação nas atividades do Programa foram destinadas à agricultores ecológicos e em fase de transição da agricultura convencional para a agroecologia.
Foi importante oferecer o Programa à agricultores que não estavam necessariamente vinculados à cooperativas e associações, já que por esta razão são os que menos têm acesso à benefícios e à informação.
A proposta é de fortalecimento de atividades de um Turismo Responsável que promova a agroecologia, agregue valor a produção e recursos locais, contribua para a diminuição do êxodo rural, incentive a participação da família nas atividades e ofereça uma remuneração justa à estas comunidades. Por outro lado, se busca diversificar a oferta de produtos, atividades e alimentos saudáveis e autênticos ao visitante.
A venda dos produtos agroecológicos na região se dá normalmente de forma direta através das feiras, numa relação muito próxima com o consumidor. Está relação favorece a divulgação das atividades de turismo nas propriedades. Ao levar visitantes para dentro das propriedades é proporcionada uma maior interação com a família e com o ambiente de cultivo destes alimentos. Com isso se fortalece a sensibilização destas pessoas quanto à importância da agricultura familiar e da produção ecológica. Os visitantes entram em contato direto com o processo de cultivo, produção de sementes, preparo da terra, colheita e muitas vezes o processamento destes alimentos.
Os benefícios mensuráveis destas atividades são de caráter econômico e vinculados à qualidade de vida destas famílias. O aumento de ingresso através da venda de produtos na propriedade e oferta de serviços como alimentação, hospedagem, acompanhamento em passeios e visitas, é um dos resultados identificados. Mas o que mais se destaca são as mudanças nas relações familiares, onde podemos perceber uma maior interação entre os membros das famílias através do exercício das suas habilidades de comunicação, com conseqüente um aumento da auto-estima e da troca de saberes entre vizinhos. No final deste ano serão apresentados os resultados de uma pesquisa aplicada aos beneficiários, onde poderemos mensurar estes benefícios, entre outros que estão sendo avaliados.
O alcance destes benefícios se deu principalmente em virtude do modelo de Gestão Participativa que norteou o trabalho da equipe técnica. Foi fundamental estruturar uma proposta que viabilizasse a inserção gradual de conceitos e ferramentas para que, a médio prazo, o grupo possa alcançar a autonomia de suas ações e metas. Assim, os técnicos exerceram, desde o início do Programa, o papel de mediadores e facilitadores do processo do grupo.

3 - TURISMO RESPONSÁVEL

O turismo hoje está inserido nas atividades de consumo que mais geram lucro e criam postos de trabalho. Pode ser visto apenas como um produto rentável, a ser oferecido a um consumidor pouco incentivado a conhecer a realidade do destino e a sua comunidade. Assim, se promove uma relação apartada da realidade local, com o objetivo único de oferecer ao visitante um ambiente de escape e lazer.
Neste contexto, CARLOS (1999: 26) considera que o processo de atrair turistas provoca de um lado um sentimento de estranhamento por parte da comunidade anfitriã, e de outro transforma tudo em espetáculo e o turista em espectador passivo. Assim remete à chamada não-identidade e com isso ao não-lugar, pois longe de se criar uma identidade produz-se mercadorias para serem consumidas. Segundo o autor:

"A indústria do Turismo transforma tudo o que toca em artificial, cria um mundo fictício e mistificado de lazer, ilusório, onde o espaço se transforma em cenário para o espetáculo para uma multidão amorfa mediante a criação de uma série de atividades que conduzem à passividade, produzindo apenas a ilusão de evasão, e, desse modo o real é metamorfoseado, transfigurado, para seduzir e fascinar. Aqui o sujeito se entrega às manipulações desfrutando a própria alienação e a dos outros."

Como contraponto existe uma demanda crescente por atividades de Turismo Responsável, onde o turista se insere ao contexto visitado, e deixa de ser apenas um consumidor passivo. O visitante interage, aprende e troca com a comunidade, e esta, por sua vez, tem a oportunidade de conhecer o visitante, contar suas histórias e estar em contato com outras culturas. O Turismo Responsável valoriza as práticas comunitárias seus produtos, numa relação de respeito com o local visitado e seus habitantes. Aqui a relação de consumo se dá de maneira consciente, com a preocupação de conhecer as origens do produto, pagar um preço justo e valorizar os meios de produção. Estas, entre outras, são características do Turismo Responsável.
Segundo notícia divulgada no site http://contactoresponsáble.com (17/07/2007) :

"...A indústria turística é uma das indústrias com maior crescimento nos últimos anos, brindando grandes possibilidades de desenvolvimento aos países; por outro lado também devemos considerar o quanto sensível é está atividade e os impactos negativos que pode ocasionar nas comunidades receptoras. Por está razão, há alguns anos cresce o incentivo a prática do Turismo Responsável, o qual na atualidade experimenta o maior crescimento no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo - OMT. Enquanto o chamado Turismo Tradicional registra um crescimento de 7,5% ao ano, o Turismo Responsável registra 20% de crescimento e supõe um 5% do turismo mundial. Para a próxima década se espera que alcance 10% do turismo mundial. Os turistas são conscientes dos impactos negativos que a sua presença pode gerar, e agora buscam uma relação diferente. Também as companhias de turismo estão percebendo que ao não cuidar o ambiente, respeitar a cultura das comunidades locais e beneficiar a economia local é um mal negócio a longo prazo. Os viajantes exigem experiências autenticas, o contato direto com as comunidades locais, tours e alojamento ambientalmente amigáveis. Os turistas querem ser viajantes responsáveis."

A proposta de trabalho da COODESTUR tem em vista o desenvolvimento de atividades turísticas planejadas, com base em um processo metodológico que tem como prioridade a participação dos sujeitos da comunidade na criação das atividades turísticas locais, sendo eles os principais atores multiplicadores do Turismo Responsável.
A finalidade do planejamento turístico "consiste em ordenar as ações do Homem sobre o território e ocupa-se em direcionar a construção de equipamentos e facilidades de forma adequada evitando assim os efeitos negativos nos recursos, que os destroem ou reduzem sua atratividade." (RUSCHMAN, 1997: 9). Sendo assim, o planejamento é fundamental para avaliar os impactos que o turismo pode provocar em uma comunidade. Através dele pode-se traçar diretrizes para o desenvolvimento de um Plano, levando-se em consideração as características da região, sendo elas geográficas, históricas, culturais ou sociais, com o objetivo de incentivar o diálogo e a construção de propostas entre os participantes do processo.
Com o foco na ação dos técnicos que atuam no planejamento de atividades turísticas, apresentamos a seguir os Princípios do Turismo Responsável de acordo com o Manual de Melhores Práticas para o Ecoturismo - Programa MPE, 2004:
  • envolver a comunidade na gestão das atividades;
  • propagar os conhecimentos sobre o meio ambiente para comunidades e visitantes;
  • promover atividades de baixo impacto com monitoramento e avaliação constante;
  • otimizar os recursos naturais: reduzir, reutilizar e reciclar;
  • planejar de forma integrada, local e regionalmente, evitando a competição entre vizinhos;
  • agregar valor à produção com atividades de lazer e venda direta de produtos ao consumidor;
  • reverter os benefícios para o bem estar local e para conservação do meio ambiente;
  • trabalhar a comunidade local como sendo os primeiros e mais importantes turistas da região;
  • buscar sempre novos conhecimentos e transmiti-los;
  • dividir ao máximo tarefas e lucros.
Tendo em vista esses princípios, é importante ressaltar o papel dos técnicos ao lidar com questões ambientas, sociais e culturais, por meio da construção de projetos e planos de desenvolvimento turístico que possibilitem a participação dos sujeitos enquanto protagonistas dos processos locais.
Assim, "todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana." (MORIN,2003: 55).
O Programa de Capacitação apresentado neste trabalho tem como foco o fortalecimento de atividades de Turismo Responsável vinculadas à agroecologia.
Segundo o CAPA - Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (2005:.09), a agroecologia é definida como "a ciência de aplicar os conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis". Além disso,

"a agroecologia é um sinal de renovação e esperança para a agricultura familiar. É rejeitar o uso de agrotóxicos, adubos químicos e sementes transgênicas, que prejudicam a saúde e o meio ambiente. Com esta nova forma de produzir busca-se fazer o resgate de técnicas e desenvolver novas tecnologias, que respeitem a Natureza e que sejam do domínio dos agricultores, não causando dependência tecnológica."

A agroecologia está além da ciência de cultivos ecológicos, sendo definida também como um estilo de vida, uma filosofia de relação comunitária e com o meio natural. Assim, a proposta de turismo agroecológico busca o fortalecimento deste movimento, que promove essencialmente a aproximação do Homem com a terra e o cultivo de alimentos saudáveis.

4 - A EXPERIÊNCIA DA COODESTUR EMPREGANDO O MÉTODO PARTICIPATIVO

Na busca de promover a autonomia dos beneficiários foram utilizadas ferramentas e técnicas de trabalho que permitem um maior nível de participação e contribuem para ações de auto-gestão efetivas.
Os Métodos Participativos são um conjunto de instrumentos, ferramentas, técnicas, e dinâmicas que auxiliam no processo participativo, de maneira planejada e com enfoque na participação dos sujeitos. No entanto, a palavra participação pode ter significados diferentes para cada indivíduo. A este respeito, CORDIOLI in BROSE,(2001: 27) afirma que:

"Participar vai muito além de estar presente. Participar significa tomar parte no processo, emitir opinião, concordar/discordar. Em um processo participativo deve ocorrer o respeito às idéias de todos, sendo que todas as contribuições devem ser valorizadas e voluntárias. Deverá haver o desenvolvimento individual e permanente, considerando que a participação é indispensável, devendo ocorrer em todo processo."

O processo participativo é contínuo. No entanto, é necessário mensurar o grau de participação dos sujeitos para identificar suas variações ao longo do trabalho.
VERDEJO (2006:16), demonstra a Escada da Participação, um quadro onde se "visualiza os diferentes níveis de participação e mostra que, efetivamente, todos os projetos são participativos, porém a diferença está em cada nível". Seguem os sete degraus da Escada da Participação:

Quadro 1: Escada da Participação
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                                                                                       Auto-ajuda
                                                                          Participação Interativa
                                                              Participação Funcional
                                                  Participação à base de Incentivos Materiais
                                      Consulta
                          Fontes de Informação
              Passividade
Passividade
O projeto fixa os objetivos e decide sobre as atividades. A informação necessária é gerada sem se consultar os beneficiários.
Fonte de informação
A equipe de pesquisa pergunta ao beneficiário, porém não o deixa decidir nem sobre o tipo de perguntas nem sobre as atividades posteriores.
Consulta
Leva-se em consideração a opinião do beneficiário; integram-se as opiniões no enfoque da pesquisa, mas o grupo-meta não tem poder de decisão.
Participação à base de incentivos materiais
Propõe-se, por exemplo, a participação em troca de insumos de produção ou de colocar à disposição terras com fins de exibição (unidades demonstrativas), mas a possibilidade de intervir nas decisões é muito limitada.
Participação funcional
O beneficiário se divide em grupos que perseguem objetivos fixados anteriormente pelo projeto. Na fase de execução participa da tomada de decisões e se torna independente no transcurso do projeto.
Participação interativa
O beneficiário incluído do ponto de vista da fase de analise e definição do projeto; participa plenamente do planejamento e execução.
Auto ajuda
A comunidade toma a iniciativa e age independentemente.
Fonte: DRP. Verdejo,2006.MDA

O processo de participação é desenvolvido através de níveis. A cada degrau o participante vai se envolvendo e aumenta o seu grau de responsabilidade e autonomia para com o Programa.
A estruturação deste Programa de Capacitação partiu da etapa "fonte de informação", já que a proposta foi elaborada por técnicos que tinham um convívio e conhecimento prévio da região. Atualmente as ações desenvolvidas se enquadram na etapa "participação funcional", e a busca pela autonomia do grupo é contínua.
A construção da proposta de trabalho foi coletiva envolvendo as lideranças locais, comunidade e a equipe de coordenadores do projeto. As ações iniciam antes mesmo da construção do projeto, com a aproximação da entidade proponente à realidade da comunidade local. Para tanto se faz necessário criar e aplicar mecanismos que demonstrem as necessidades do micro e macro ambiente.
As etapas de trabalho foram planejadas tendo como apoio um cronograma de ações:
Etapa I- Contato com os Grupos Gestores: A primeira iniciativa permeia a aproximação com as lideranças locais: instituições públicas, associações, cooperativas, grupos de liderança local. O contato com estas entidades permitiu a formação de um banco de dados que foi a base do cadastro de famílias que poderiam ser beneficiadas pelo Programa. A partir da união com os grupos é possível traçar metas de desenvolvimento das próximas etapas.
Etapa II -Mapeamento e Diagnóstico: O próximo passo é mapear e diagnosticar necessidades e potencialidades das comunidades, com o intuito de direcionar o projeto, através de Encontros de Sensibilização. Os Encontros foram divulgados através das rádios locais e Prefeituras Municipais, convidando agricultores familiares interessados ou atuantes em agroecologia. Também foram visitadas algumas famílias que formavam o banco de dados previamente fornecido pelas entidades locais. Durante os Encontros foi feita a apresentação da proposta e iniciado o diálogo sobre a situação da agricultura na região, a importância da agroecologia e sua relação com o turismo. O resultado do encontro com os grupos gerou informações relevantes para o início da construção da metodologia a ser aplicada nos Módulos de Aprendizagem Prática- MAP, assim como a adaptação dos conteúdos à realidade local. Mesmo suas denominações foram adaptadas, como podemos observar no quadro 2 a seguir:

Quadro 2: Módulos de Aprendizagem Prática- MAP
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Inicialmente os MAPs foram
estruturados em:
Após a etapa II foram denominados:
MAP I - Turismo e Agricultura Familiar
MAP II - Atendimento Turístico
MAP III - Monitor local e Formação de Roteiros
MAP IV - Capacitação de Grupo Gestor para a
Comercialização no Mercado Turístico
MAP I - Turismo e Agroecologia
MAP II- Acolhida na Agricultura Familiar
MAP III- Roteiros e Monitor Local
MAP IV- Formação de Rede de Cooperação
Fonte: elaborado pelas autoras, 2007

Etapa III - Capacitação dos Instrutores: Para otimizar o trabalho junto às famílias foi realizada uma capacitação dos instrutores em metodologias participativas, com foco na estruturação prática dos conteúdos, técnicas de visualização e dinâmicas de grupo que permitiram um maior nível de participação e integração. Com o nivelamento dos instrutores, e com base nos temas levantados nos Encontros, foi iniciada a adaptação dos conteúdos previstos para cada MAP. Foi importante definir que cada MAP seria conduzido por dois instrutores, na busca de um trabalho em conjunto onde as diferentes experiências e olhares se complementam.
Etapa IV- Construção do Material Didático: Os instrutores, com acompanhamento da coordenação, construíram cartilhas específicas para cada um dos MAPs. Impressas em papel reciclado, contém conteúdos e linguagem direcionada ao público beneficiário. Ao elaborar o plano de aula e estruturar as dinâmicas, as equipes tiveram o cuidado de priorizar o uso de elementos disponíveis no local, como: chapéu de palha, frutas, sementes, pedras, folhas, espigas de milho, entre outros. Mesmo ao utilizar elementos externos, como cartolinas e pincel atômico, foi incentivado o uso de desenhos e de outras formas de expressão além da escrita.
Etapa V- Realização dos Módulos de Aprendizagem Prática: Nesta etapa é feita a articulação das turmas e a organização dos locais dos encontros, a alimentação do grupo e transporte. Assim, quando os instrutores se deslocam à região, a logística dos encontros já está preparada. Outro ponto relevante é a alimentação. Se prioriza que seja oferecida por membros da comunidade, que se utilizem produtos locais e ecológicos, e que sejam servidas no local das capacitações. O momento da alimentação é um espaço de integração, de troca de conhecimento e de reflexão. Está prática é fundamental para os instrutores observarem o andamento dos trabalhos e conhecerem melhor o grupo de beneficiários.
Os Módulos de Aprendizagem Prática, têm por objetivo promover a inclusão e a participação da família e da comunidade através de atividades práticas feitas em espaços comunitários e propriedades. Como estratégias dos MAPs inseridos no Programa podemos citar:
  1. Desenvolver atividades turísticas que fortaleçam a agricultura familiar ecológica;
  2. Aplicar métodos participativos, com intuito de envolver gradualmente os beneficiários no processo de gestão;
  3. Realizar os módulos de aprendizagem prática nas unidades de agricultura familiar dos beneficiários do programa de capacitação, estimulando a prática de acolhida;
  4. Estimular e resgate da culinária local, através de almoço comunitário, valorizando a gastronomia local;
  5. Realizar visitas técnicas, estimulando o intercambio entre as famílias de beneficiários;
  6. Promover a capacitação dos técnicos envolvidos no programa na busca da qualificação em métodos participativos;
  7. Estimular a integração de toda a família no processo de capacitação.
Tendo em vista o perfil dos beneficiários, a abordagem do processo de formação dos atores direciona-se para a aprendizagem coletiva de adultos, isto é, em grupos. Os locais destinados às capacitações foram prioritariamente os espaços comunitários e propriedades dos beneficiários. No entanto teve-se o cuidado de delimitar o ambiente de estudo, levando -se em consideração a iluminação, condições climáticas, e infra-estrutura que permita trabalhos em grupo.
Por se tratarem de atividades custeadas pelo MDA, os beneficiários não tiveram custos com relação ao Programa. Porém, para que houvesse um maior comprometimento e a valorização das atividades propostas se incentivou as contribuições espontâneas como lanches caseiros, oferta de hospedagem e alimentação à instrutores e participantes, oferta de transporte e caronas, além da acolhida oferecida nas propriedades que sediaram os MAPs. Pequenas ações que contribuíram também para o exercício de acolhida das famílias e a uma maior integração e estreitamento de laços entre os participantes. Em alguns casos as Prefeituras também ofereceram alimentação e transporte aos grupos, como a de Severiano de Almeida - RS e Concórdia - SC.

4 - CONCLUSÃO

O Programa de Capacitação de Agricultores Familiares - Turismo e Agroecologia no Alto Uruguai ainda é incipiente e encontra-se em suas etapas iniciais. Mesmo sendo uma proposta iniciada em no segundo semestre de 2005 se sabe que, ao trabalhar com planejamento e desenvolvimento de atividades comunitárias, dois anos ainda á considerado um período de curto prazo. Mesmo assim, desde os primeiros meses das atividades do Programa foi possível perceber alguns dos resultados do uso de métodos simples e que promovam a inclusão. Foram coletados depoimentos orais e escritos, e podemos citar aqui algumas das colocações feitas pelos participantes:
  • Foi fundamental visitar vizinhos ou mesmo colegas de outros municípios, tanto para conhecer seu trabalho quanto para motivar aos que estão iniciando em agroecologia e/ou em turismo, fazendo-os perceber que não estão sozinhos nestas iniciativas;
  • Ao realizar atividades nas propriedades foi possível que mais membros da família e da comunidade participassem. Em muitos casos o turismo foi desmistificado através deste contato e pessoas que não se motivavam a deslocar-se para os Encontros começaram a fazê-lo;
  • Os conteúdos foram trabalhados de maneira prática, o que permitiu sua aplicação e contribuiu para que o grupo percebesse que o turismo é uma atividade acessível e viável;
  • O grupo em geral melhorou sua disposição de falar e lidar com público. Algumas pessoas que inicialmente não se expressavam em grupo acabaram inclusive se destacando das atividades de monitor local;
  • A integração entre técnicos, membros das Prefeituras e agricultores gerou diálogos ricos e promoveu uma maior integração nos trabalhos que desenvolvem;
  • Para algumas pessoas foi a primeira vez que trataram de assuntos como a ecologia, a situação atual da agricultura e a importância dos cuidados com os recursos naturais;
  • Diversos depoimentos colocaram a importância de dispor deste espaço para debate e construção de alternativas, e que os assuntos eram muito comentados em casa, na escola e em seu trabalho - destacando o papel de multiplicador que cada um exerce neste tipo de trabalho.
Na segunda etapa do Programa será realizada uma pesquisa detalhada para quantificar os resultados deste trabalho. Após 17 meses de atividades do Programa podemos citar alguns deles, segundo o Relatório Parcial elaborado pela equipe técnica em abril de 2007:
  • Todos os Módulos realizados contaram com a participação de técnicos das Prefeituras, da EMATER nos grupos de beneficiários do Rio Grande do Sul e da EPAGRI em Santa Catarina;
  • O Programa permitiu à todas as famílias receberem cartilhas sobre turismo, desenvolvidas pela equipe da COODESTUR como material didático e que continuam sendo utilizadas também nas escolas;
  • De acordo com o projeto inicial 02 dos 11 municípios da Associação dos Municípios Lindeiros à Barragem de Itá - AMULBI seriam beneficiados pelo Programa. Hoje já são 06 municípios beneficiários;
  • O projeto previa o envolvimento de 02 comunidades rurais; participam do Programa 09 comunidades;
  • 02 famílias já estão recebendo visitantes de maneira autônoma, isto é, sem intervenção de técnicos. Uma delas recebeu mais de 200 pessoas em menos de três meses de atividade - e a partir daí pôde estabelecer sua capacidade de carga ideal;
  • A diversidade de produtos turísticos criados pelos agricultores permitirá atender, além do público freqüentador das Termas da região, estudantes, moradores dos municípios e agricultores em busca de lazer, conhecimento e vivências envolvendo alimentação e cultivo sem agrotóxicos.
É importante salientar que através do uso de ferramentas que promovam a participação, as atividades são desenvolvidas dentro de um processo gradual, contínuo e qualitativo. A pesquisa a ser aplicada na segunda fase do Programa trará dados relevantes que permitirão uma análise detalhada dos efeitos da aplicação deste tipo de ferramentas.
Hoje os Módulos de Aprendizagem Prática, metodologia criada pela COODESTUR, estão sendo adaptados para sua aplicação em outros projetos, e o processo de melhoramento de suas ferramentas e da atuação dos técnicos é contínuo.

REFERÊNCIAS

Centro de Apoio ao Agricultor - CAPA. A Prática Agroecológica no CAPA. Porto alegre: CAPA, 2005.
BROSE, Markus. Metodologia Participativa: Uma introdução a29 instrumentos/Markus Brose (org)._Porto Alegre:Tomo Editorial, 2001.
MACHADO, Álvaro. Ecoturismo um produto viável: A experiência do Rio Grande do Sul. Rio de janeiro: ed. Senac nacional, 2005.
Manual de Melhores Práticas para o Ecoturismo - Programa MPE, 2004.
MORIN, Edgar e Anne Briggitte. Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 2000.
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