Navegando nos ambientes da Ilha Grande dos Marinheiros:
Turismo responsável e geração de renda
 
Navegando em los ambientes de la Ista Grande de los Marinheiros:
Turismo responsable y geración de renta
 
Sailing the Ilha Grande dos Marinheiros Environment:
Responsible tourism and wealth generation
 
Gilmar Gomes & Juliane Magagnin Da Soller
 
UFRGS Núcleo de Economia Alternativa: gilpoa2005@yahoo.com.br
UFRGS Faculdade de Geografia: borboletas7@yahoo.com.br
 
Resumo:
 
O presente artigo se constitui a partir do relato de experiência de um trabalho em extensão universitária, através da investigação e da reflexão do ambiente dialogado com o desenvolvimento local, tendo este como parâmetro fundamental do crescimento do sujeito como aquele que constrói a vida.
Este artigo se apropria das oficinas de Educação Ambiental e de Trilhas, realizadas dentro do curso de Capacitação em Cooperativismo e Autogestão, produzido pelo Núcleo de Economia Alternativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Este curso foi realizado junto a Cooperativa Mista de Produção e Serviços Arquipélago Ltda (COOPAL), localizada na Ilha Grande dos Marinheiros, uma ilha do município de Porto Alegre, com objetivo de instrumentalizar os membros desta cooperativa na gestão e fortalecimento do empreendimento, de forma que o mesmo se configure em um elemento multiplicador em sua comunidade.
A compreensão da produção de vida, eu e nós no espaço vivido, o aprofundamento das relações cooperativas e a ampliação dos horizontes oportunizando novas frentes de trabalho, com a ótica da economia solidária, foram os temas referenciais destes encontros.
 
Resumen:
 
El presente artículo está conformado a partir del relato de las experiencias de un trabajo de extensión universitaria, constituido por la investigación y de la reflexión del ambiente dialogado con el desarrollo local, teniendo este como parámetro fundamental del crecimiento del sujeto como aquel que construye la vida.
Este artículo se apropia de los talleres de Educación Ambiental y de Trilla, realizados dentro del Curso de Capacitación en Cooperativismo y Autogestión, producido por el Núcleo de Economía Alternativa de la Universidad Federal del Río Grande del Sur (UFRGS). Este curso fue dirigido a la Cooperativa Mixta de Producción y Servicios Arquipelago Ltda (COOPAL), localizada en la Isla Grande de los Marineros del Municipio de Porto Alegre, con el objetivo de instruir a los miembros de esta cooperativa en gestión y fortaleciendo la iniciativa emprendedora, de forma que el mismo se configurara como un elemento multiplicador en su comunidad.
La comprensión de la producción de la vida, del yo y del nosotros en el espacio vivido, la profundización de las relaciones cooperativas y la ampliación de los horizontes, la posibilidad de ofrecer nuevos frentes de generación de trabajo, con la economia solidária, fueron los temas referenciales de estos encuentros.
 
Abstract:
 
This article presents an account of a university extensional work developed through the investigation and reflection about the dialogue between environment and local development, taking the last as a fundamental parameter of the subject's growth as the one who constructs life.
The article takes into consideration the workshops about Environmental Education and Trail promoted by the Alternative Economy Center of the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS) as part of the course Cooperativeness and Self-Management. The course was designed for the Mixed Cooperative of Production and Services Arquipélago (COOPAL), located in Ilha Grande dos Marinheiros, an island in the city of Porto Alegre. The aim of the course was to enlighten the cooperative's members to manage and straighten their enterprise for it to become a multiplying element in their community.
The main themes of these encounters were the comprehension of the production of life, of the self and of the collective in the living space, the intensification of cooperative relations and horizons amplification in order to generate work, with the solidarity economy.
 
Palavras-chaves: Educação, ambiental, economia, solidária, trilha.
Palabras: Educación, ambiental,economia, solidária, trilla.
Key-words: Education, environment, economy, solidarity, trail.
 
Introdução:
 
O marinheiro, marinheiro quem te ensinou a nadar?
Foi o dono do navio ou o balanço do mar?
Oh Marinheiro só!
 
Trabalharemos neste artigo com a noção de campo ambiental conforme a noção ressaltada por Carvalho (CARVALHO 2001).
Com a noção de campo ambiental interessa circunscrever certo conjunto de relações sociais, sentidos e experiências que configuram um universo social particular. O campo ambiental seria então um espaço onde as relações sociais são postas em evidência através da participação dos sujeitos enquanto sujeitos coletivos que se relacionam política e historicamente com o ambiente em sua volta a partir de uma rede que envolve relações com o poder público e com a sociedade civil, mas mantém sua autonomia. Esta relação, dependendo do grau de exigência das demandas da comunidade e dos problemas ambientais pode mais ou menos tensa.
Geografia é uma ciência que dialoga com muitas áreas do conhecimento, "é a ciência mais multidimensional já criada" (MORIN, 2000). Mas nunca foi tão demandada e necessária na abordagem das questões relativas ao campo ambiental.
O fato é que nem poderia ser diferente uma vez que as questões ambientais estão hoje sendo apropriadas por áreas diversas do conhecimento o que em parte pode ser creditado a um esforço dessas áreas em estabelecer este diálogo e, em parte, pela grande visibilidade que essas questões estão tomando, seja pela mídia, seja pelas ações de ongs, empresas privadas e órgãos governamentais. O que nos faz pensar que se torna necessário fazer algumas mediações dos impactos dessa visibilidade em parte "modal" em parte produto de pressões diversas da sociedade interessada em uma vida qualitativamente melhor do ponto de vista ambiental.
A Geografia tem caminhado neste sentido do campo ambiental, indissociando ações físico-naturais das sociais, mas o esforço nesta articulação não foi tarefa simples. "A bem da verdade, construir uma ciência de articulação na época em que surgiu oficialmente a Geografia pareceria remar contra a maré, pois neste período a visão de ciência dominante privilegiava a divisão entre ciências da natureza e da sociedade". (SUERTEGARAY 2001, p. 15)
Objetivamente, queremos dizer que, de nada adianta tratarmos da reconstituição e/ou preservação da saúde do ambiente se não estivermos também preocupados em lidar com a saúde do ser humano. E para ter saúde o ser humano precisa dispor das condições materiais e subjetivas que lhe permita viver com dignidade. Então, estamos dilatando aqui o conceito de saúde.
Este texto, construído a partir de um relato de experiência, busca fazer uma reflexão sobre possibilidades da extensão universitária contribuir, a partir da ação prática, provocando, no nível teórico, uma relação que mostre como o campo ambiental dialoga com a produção da vida, com a geração de renda e a economia alternativa ou solidária dentro de um espaço vivido. Este "espaço vivido pode ser entendido como a rede de manifestações da cotidianidade desse sistema em torno das intersubjetividades que são, por sua vez, as redes nas quais se constituem as existências individuais - no trabalho, na escola, na família, nas outras formas da vida societária." (REGO 2000, p. 7).
O trabalho de extensão se deu em Curso de formação realizado pelo Núcleo de Economia Alternativa (NEA)/Incubadora de Cooperativas Populares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em parceria com outros departamentos desta Universidade: Direito, Economia, Geografia e Psicologia Social, na primavera de 2004.
Neste artigo nos apropriaremos das oficinas de Educação Ambiental e de Trilhas, realizadas em parceria com o Departamento de Geografia da UFRGS que foram instrumentos para viabilização de uma política de extensão de uma universidade que se pretende pública e pensa o desenvolvimento local como aquele parâmetro fundante do crescimento do sujeito co mo aquele que constrói a vida .
Este curso de formação foi dirigido aos membros da Cooperativa Mista de Produção e Serviços Arquipélago Ltda (COOPAL), que está localizada na Ilha Grande dos Marinheiros, no Bairro Arquipélago, do município de Porto Alegre, no estado Rio Grande do Sul.
 
Caracterização do ambiente
 
O marinheiro, marinheiro, que lugar é este?
Em que águas você navega?
 
O Bairro Arquipélago, de Porto Alegre, é composto por 16 ilhas fluviais, que são constituídas pelos sedimentos dos quatro rios (Jacuí, dos Sinos, Caí e Gravataí) que formam o Delta do Jacuí e desembocam no Lago Guaíba (Foto 1). A Ilha Grande dos Marinheiros é uma das mais povoadas, juntamente com as ilhas da Pintada, das Flores e do Pavão, certamente em função das condições de acesso, pois possuem estradas que as ligam ao continente. As demais ilhas são menos populosas e o acesso é somente realizado através de barcos.
 
Localização da Ilha Grande dos Marinheiros.
 
A população do bairro convive com situações específicas dentro da capital, dada a sua vulnerabilidade social, a situação de pobreza absoluta e de sua suscetibilidade as variações dos níveis da água, com constantes enchentes nas estações chuvosas e a falta de água nas secas, agravada pela grande parte das áreas que foram desmatadas pelo corte irregular de árvores, ocorrência principalmente das ilhas mais habitadas. Contudo, destaca-se que ainda existem trechos nativos preservados.
O conjunto de ilhas, através dos últimos dados oficiais, Censo do IBGE de 1996, aponta para uma população de apenas 2.634 pessoas, porém através da informação disponível entre as Associações Comunitárias e Organizações Sociais, há a sinalização de que residem na região, aproximadamente 14.000 habitantes.
O bairro, de um modo genérico, apresenta déficit com relação a oferta de vagas nas escolas, alto índice de violência, fome, alcoolismo, drogadição, inexistência de saneamento básico, habitações precárias, doenças endêmicas, mortalidade infantil e gravidez na adolescência. Às doenças sexualmente transmissíveis, incluso HIV/AIDS, são constatadas em muitos casos, e ainda não há um acompanhamento efetivo dos mesmos, em virtude da capacidade limitada de atendimento das Unidades de Saúde. Só existem dois Postos de Saúde Municipais pequenos, um na Ilha da Pintada e outro na Ilha Grande dos Marinheiros, para atendimento de toda a população do bairro.
Outro fato que a comunidade aponta como preocupante é a falta de atividades alternativas para os jovens, que muitas vezes não conseguem sequer ter acesso ao Ensino Médio, pois só existe uma escola na Ilha da Pintada, não conseguindo atender a demanda do bairro, como um todo. Esta ociosidade é apontada como causa do alto índice de violência, inclusive sexual, e marginalidade entre essa população.
São escassas as oportunidades e alternativas de trabalho. Na Ilha Grande dos Marinheiros as que existem estão ligadas à pesca e à catação e separação de lixo para a reciclagem, além de trabalhos temporários (biscates, faxinas,...).
Uma das especificidades de destaque é a de que o bairro está localizado em uma área de preservação ambiental de 17.245 hectares, que compõe o Parque Estadual do Delta do Jacuí, decretado em 1976. Desde novembro de 2005 estabeleceu-se (de forma anti-constitucional) a Unidade de Conservação de Uso Sustentável Área de Proteção Ambiental em uma área contígua a do Parque, englobando as áreas com ocupação urbana.
Estando em área de preservação, toda a ocupação humana do bairro se deu em aterros clandestinos, com moradias irregulares. Estando irregulares não se pode encaminhar pedido para a melhoria da infra-estrutura, retirado do acúmulo de lixo, tratamento dos esgotos que são jogados direto nos corpos d'água, urgência no programa de despoluição da água considerada imprópria para banho e pesca, além dos demais problemas já citados de precariedade na educação, sistema de saúde e segurança. Ainda especificamente a Ilha Grande dos Marinheiros se caracteriza por apresentar visíveis contradições socioeconômicas, sendo que a ilha se transformou em uma área muito valorizada e elitizada de Porto Alegre com mansões construídas para veraneios.
Estas ocorrências, principalmente ligadas à falta de políticas públicas adequadas e a frágil localização geográfica da ilha, têm produzido profundos impactos sobre o ambiente e na organização social desta comunidade, degredindo a qualidade de vida de modo geral.
A implantação efetiva da Unidade de Conservação trará de imediato à possibilidade de um grande atrativo para a prática do ecoturismo, mas, simultaneamente, exigirá a re-locação de parte da comunidade e a sua evidente preparação para o aproveitamento desta possibilidade, como alternativa de desenvolvimento, promovendo a melhoria da qualidade de vida, além da geração de trabalho e renda.
Neste panorama temos de um lado um dos problemas ambientais urbanos de maior importância que é aquele relacionado à preservação dos ecossistemas naturais ainda existentes nas cidades e de outro uma população fixada no local vivendo em condições de vulnerabilidade social com poucas oportunidades de desenvolvimento social.
 
COOPAL
 
O marinheiro, marinheiro. Marinheiro só.
Marinheiro só?
 
Mesmo diante de tantas adversidades a população carente da Ilha vem se articulando em muitas instâncias de participação e organização comunitária. Uma destas iniciativas é a Cooperativa Mista de Produção e Serviços do Arquipélago Ltda (COOPAL), fundada em 2001, que opera na prestação de serviços gerais como construção civil, carpintaria, jardinagem e paisagismo e limpeza urbana (Foto 2). Em 2003 firmou seu primeiro grande contrato, uma vez que envolveu 20 pessoas de uma só vez, na área de limpeza ambiental (contrato com empresa terceirizada - COOTRAVIPA via Departamento Municipal de Limpeza Urbana - DMLU até 2004). Nas palavras do cooperado Pedro Amaral Pires, frente a este contrato, publicadas no Boletim do Arquipélago (Jun 2004): "Ninguém acreditava na nossa cooperativa. Agora trabalhamos com a parceria do DMLU, tirando os entulhos e dejetos do lixo deixados na ilha".
 
Reunião da COOPAL.
 
A Cooperativa tem formado líderes que exercem sua atuação para além dos limites do empreendimento e mesmo da comunidade. Líderes destacados da COOPAL são muitas vezes representantes do Bairro no Orçamento Participativo, educadores do MOVA, palestrantes em parceria com a SMED/POA em várias comunidades de periferia no tema da economia solidária; representantes na REDE e coordenação do Programa Fome Zero no Bairro e monitoria na área de educação ambiental.
Em 2006 foi conquistado um novo grande contrato com a Secretaria Municipal de Saúde. Este, prevê o combate e a prevenção à doenças transmitidas por mosquitos, em especial, a dengue nas ilhas habitadas do Bairro Arquipélago, podendo ser estendido para outras áreas urbanas de periferia da Cidade. Este contrato amplia, em relação ao anterior, para 43 pessoas envolvidas.
No curso de formação provocou-se também debate sobre a possibilidade de a Cooperativa vir a se qualificar em ações de geração de trabalho e renda em outros campos que não o único que opera hoje (prestação de serviços na área da limpeza ambiental), como oficinas de plantas medicinais, de educação ambiental e de trilhas.
 
O Curso: Base teórica e Metodologia
O marinheiro, marinheiro
Quem te ensinou a nadar?
 
No período de 13 de outubro a 18 de novembro de 2004, decorrente da necessidade de ampliar a discussão entre os cooperados sobre os princípios da cooperativa, formulou-se então o Curso de Capacitação em Cooperativismo e Autogestão, curso de formação na atividade de extensão produzido pelo NEA. O curso objetivou instrumentalizar, do ponto de vista teórico e prático, os membros da COOPAL na gestão e fortalecimento da cooperativa, de forma que o mesmo se configure em um elemento multiplicador em sua comunidade ampliando sua capacidade de referência a outros setores populares que lutam por um espaço social, pela monitoria ambiental e pela conquista de uma vida digna capaz de propiciar renda deixando de depender apenas das políticas compensatórias dos governos.
A metodologia aplicada no curso baseou-se em aulas dialogadas e oficinas práticas dentro da perspectiva da educação de jovens e adultos, tendo o enfoque do trabalho como princípio educativo (FRIGOTO 1998). A base teórica principal buscamos em Paulo Freire na figura do agente social (GAYOTTO 1987). Este seria, antes de tudo, um educador social, mas sua atuação pretende ir além da sala de aula em uma convivência de mútuo respeito acompanhando os passos dos educandos em sua auto-organização e participação comunitária. Como educador, parte do princípio de que o conhecimento não é um produto pronto, acabado, que se encontra disponível para "transmitir" ao aluno e sim de que o mesmo está permanentemente em suas mãos e nas mãos de seus educandos como um arcabouço que lhe sustenta a vida. Sua atuação é resgatar o conhecimento popular acumulado e de posse do seu, formatado e acadêmico, fazer um diálogo permanente a fim da construção de um outro conhecimento produzido de forma coletiva e dialógica.
O Programa do Curso procurou contemplar as especificidades que se apresentavam como demandas do grupo cooperativo da Ilha Grande, percebidas através do convívio de quatro anos no processo de incubação do empreendimento que o NEA vem realizando junto a COOPAL. Deste modo, enfatizou-se aspectos ligados ao planejamento estratégico, à gestão administrativa e contábil, tendo sempre como referência a participatição e a democracia (autogestão). Na perspectiva da interdisciplinaridade, aqui é compreendida concebendo a realidade como interdisciplinar, pois é ela, e neste caso, a coletividade organizada no empreendimento e seu entorno, que vai exigir estas ou aquelas áreas do conhecimento. A nós, gestores, extensionistas ou militantes, cabe a sensibilidade em operar de forma conectada com esta realidade (BRANDÃO 1985).
Nosso trabalho enquadra-se no que autores como Carlos Rodrigues Brandão, Guido Irineu Engel e Michel Jean-Marie Thiollent denominam Pesquisa-Ação, conceituando esta:
 
"um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em etreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo" (THILLENT 1986).
 
Reportaremos-nos ainda, em se tratando de métodos, a Paulo Freire que nos dá a base de inserção nesta pesquisa, ao nos entendermos como práxico que articula prática e reflexão.
 
Educação Ambiental
Foi navengando pelo lago?
Foi conhecendo tua história?
 
Anteriores às oficinas específicas do Curso, foram realizados dois encontros com a COOPAL. Estes encontros foram importantes para que os ministrantes das oficinas e os participantes se conhecessem possibilitando a troca de primeiras impressões, a investigação dos anseios dos grupos e a maneira como os membros desse grupo se compreendem enquanto indivíduos sociais do local, o que Paulo Freire chamou "leitura do mundo". Segundo esse educador, para educar precisa-se "ir 'lendo'cada vez melhor a leitura do mundo que os grupos populares com quem se trabalha fazem de seu contexto imediato e do maior de que o seu é parte" (FREIRE 1996, p. 81).
O primeiro encontro ocorreu na sede da cooperativa, na própria Ilha, tendo como um dos momentos de destaque o relato da situação institucional do Delta do Jacuí, que todos aguardavam ansiosos, pois naquela data estava em vias de passar de Unidade de Conservação Parque Estadual do Delta do Jacuí para Unidade de Conservação Área de Proteção Ambiental (APA) do Delta do Jacuí.
O cooperado Paulo havia chego da reunião com a Fundação Estadual de Proteção e Amparo ao Meio Ambiente (FEPAM) e argumentou às vantagens da mudança de Parque para APA com seu depoimento:
"No Parque todos nós teríamos que sair daqui, agora na APA a gente pode ficar na Ilha, só teremos que nos mudar porque nossas casas não estão certas, entre outras coisas, não temos esgotos. Os ricos vão poder ficar aí porque eles têm tudo certinho. Nós vamos nos mudar de casa, mas não da Ilha".
No entanto, como a maioria da população, tanto de baixa como de alta renda, encontra-se nas margens dos rios e do lago, está em área de preservação permanente segundo a legislação ambiental brasileira , onde a ocupação não é permitida independente de sua Unidade de Conservação (UC). A de baixa renda ainda encontra-se em maior risco com suas casas sujeitas a enchentes e erosão do terreno, quando para a de alta renda este risco é minimizado pelos recursos de suas construções como muros de contenção e elevação do terreno de moradia. Assim, ambas devem ser removidas. Para os muitos moradores de baixa renda que são pescadores se afastarem dos corpos d'água significa um sério problema, pois dificulta suas atividades pesqueiras. E para os veranistas de alta renda significa a perda do luxo do atrativo de suas residências: a água para a prática de esportes aquáticos e para desfrute da paisagem.
Contudo, o maior requerimento da comunidade residente de fato na ilha, são investimentos em infra-estrutura e melhoria em suas residências, possibilitado (mas não garantido) na APA, onde seriam legalizados, delimitados espaços de ocupação e de exploração e uma área, menor que a primeira do Parque, de preservação permanente da natureza. Só que o ambiente físico natural, com uma ocupação humana que já começou irregular, atravessada ao ecossistema local e sem medidas ambientalmente eficazes subsequencialmente, degrada-se cada vez mais e diminui sua área de recuperação e de restauração. Para o Professor Albano Schwarzbold da UFRGS: "Não adianta ampliar áreas de preservação ambiental se não se delimita regiões de preservação permanente , intocados, com espaço suficiente para que a natureza do Delta se recomponha". (Zero Hora, out. 2004)
Um outro ponto ainda a ser balanceado nesta discussão entre Parque e APA é a administração da UC, no Parque é o poder público e na APA tem-se um conselho constituído pelas várias instâncias da sociedade, onde é essencial, porém não assegurada, a participação efetiva da população mais carente, a fim de viabilizar seus objetivos.
Quanto à legislação brasileira para Unidades de Conservação é anticonstitucional a transição de Parque para APA por um decreto, pois está rebaixando a categoria da UC (de uma mais protecionista ambientalmente para uma menos), sendo isto só possível por lei.
Já nesse primeiro encontro estas questões intrínsecas das UC foram identificadas como um dos temas a serem abordados na oficina de Educação Ambiental. Surgiu a importância de se contrastar os conceitos de ambas Unidades de Conservação, de estimular a curiosidade epistemológica à cerca da questão, de instigar os participantes da oficina a se perguntarem: Por que nossas casas não estão certas? Para onde seremos deslocados na própria ilha? Onde estão e como é o esgoto dos "ricos"? Qual a infra-estrutura que chegará sendo APA? Como ficará a natureza? Como podemos melhorar nossa qualidade de vida e a qualidade ambiental da ilha? Onde a natureza "verde" terá espaço para se restituir sem interferência da natureza humana? Quem fará parte do Conselho que administrará a APA? Por que agora esta transição de Unidades está sendo viabilizada?
O segundo encontro aconteceu na abertura do curso quando pudemos nos identificar um pouco mais, ampliar as leituras do mundo local e discutir o programa do curso.
Para as apresentações individuais foi realizada a dinâmica do "Eu entendo". Essa consiste na retirada aleatória de um papel por cada participante, onde há escrito um dos temas abordados no curso: cooperativismo, relações humanas e cooperação, economia solidária, autogestão, gestão contábil com prática para autogestão, educação ambiental, legislação cooperativa, gestão e administração cooperativa. As oficinas extras de plantas medicinais e trilhas não foram colocadas.
Sendo o número de participantes bem maior que o número de temas, mais de uma pessoa tirou o mesmo tema. Todos com os temas em mãos, ao apresentar-se dizia o nome e o que entendia pelo tema. A idéia era que falassem qualquer coisa, sem preocupação com acertos.
As primeiras respostas foram repetidas pelos demais. Esta dinâmica tem o intuito de demonstrar exatamente isso, e realizamos uma reflexão acerca de como costumamos repetir as idéias dos outros colegas, bem como da mídia, sem analisá-las em nossos significados.
Verificou-se também um conhecimento limitado a respeito dos temas abordados, que serviu como interpretação inicial dos ministrantes na compreensão dos temas pelos participantes.
Para Educação Ambiental (EA) a resposta comum foi a de que é preciso preservar a natureza e cuidar do lixo. Nota-se com isso, o conhecimento apenas superficial do tema, com a repetição de slogans comerciais e distanciamento do cidadão-objeto, o não reconhecimento da inter-relação das "minhas ações" com as conseqüências que "me circundam".
Acreditamos na importância de aprofundar essas questões no sentido de compreender o porquê e como preservar a natureza, o que é nossa responsabilidade e o que compete à administração pública, como nossos atos interferem no meio em que vivemos, o porquê de selecionar e reciclar o lixo, o porque de não poluirmos os rios e as conseqüências deste rio poluído e as que vão além do rio.
Os encontros de EA foram desenvolvidos dentro destes pressupostos apresentados, buscando estabelecer um espaço para o diálogo aberto, discussões, trocas, criação e aprofundamento de valores e atitudes ambientais e cooperativistas, sensibilizando os participantes para a inserção de cada um na construção do seu hoje, como agentes que assumem a possibilidade e a luta para a transformação que desejam. Também sensibilizando para as questões socioambientais pertinentes ao seu contexto local ampliando-as ao regional/global e às características do meio que agregadas às modificações ocorridas ao longo do tempo e à história da comunidade em cada um, interferem no modo de vida presente dos ilhéus.
O primeiro encontro específico da oficina de Educação Ambiental iniciou com uma apresentação onde cada um disse seu nome e um elemento do local que comece com a primeira letra do seu nome. Esta dinâmica tem o intuito de nos remeter ao local, de nos colocarmos nele, de estarmos inteiramente nele. Ainda facilita ao oficineiro gravar o nome dos participantes. A lista dos nomes, com os apelidos já unidos a eles, já serviu de lista de presença: Marlene Marinheiros, Eliana Ervas, Paulo Posto de Saúde, Daniel Delta, Cleber Creche, Silvio Sapo, Mara Marina, Angélica Aruá, Paulo Piava e Zé (José) Jacaré.
Abriu-se o diálogo com chuva de idéias sobre o significado de EA e quais as participações de cada um nas ações em prol do meio ambiente local, lugar onde se vive. Para que todos estivessem à vontade em expor suas idéias e opiniões, realizamos um bate-papo, investigando as palavras em seus conceitos e sentimentos. Para melhor visualizar, esquematizar e exemplificar os pontos levantados no bate-papo quanto à atuação e a responsabilidade de cada um nos acontecimentos do meio, realizamos a atividade com cartões. Nessa escreve-se e/ou desenha-se em cartões de diferentes cores os problemas ambientais e os pontos importantes do ambiente para após levantar as causas e conseqüências decorrentes dos problemas citados. Tivemos como resultado dos problemas, de forma resumida:
  • Lixo: rato, barata, moscas, cheiro ruim, sujeira na rua, água parada (mosquito da dengue);
  • Poluição das águas: lixo, esgoto sem tratamento, bicho morto, poluição vindo de outros locais (como de outros bairros de Porto Alegre), peixe poluído;
  • Poluição do solo: lixo na rua, esgoto sem tratamento;
  • Poluição no ar: carros, queima de lixo, indústria;
  • Poluição sonora: proximidade com a estrada (carros) e vizinhos;
  • Desmatamento: construção de casas, erosão do solo, diminuição animais silvestres;
  • Venda de terrenos apenas pelo dinheiro (lucro): invasão de casarões;
  • Fofoca;
  • "Granfinos": individualismo.
Pontos importantes do ambiente:
  • Água: Guaíba, abastecimento por pipas, pesacaria, banhos;
  • Árvore: ar mais puro, sombra, fruto;
  • Peixe: alimento (Vem da onde? Qual a condição deste peixe?);
  • Cooperativa: união das pessoas com ideais comuns: trabalho, respeito e melhoria da comunidade.
Trabalhamos também os mapas mentais, iniciando com uma orientação geográfica das coordenadas, com o auxílio da rosa-dos-ventos e dos pontos de referência deles no local. Mentalmente os participantes foram se colocando em um ponto do espaço/ilha (comumente suas casas) e a partir do ponto deles a direção ou a coordenada de outros elementos que podem ser visualizados ao redor. Essa atividade possibilita que trabalhemos a passagem da noção espacial topográfica para projetiva e euclidiana, onde estamos aptos a nos projetar para um outro local do espaço, também de nos colocarmos no "lugar da outra pessoa", para assim podermos entender melhor nosso próximo. É um recurso muito bom de ser utilizado com pessoas não-alfabetizadas, como no caso de parte do grupo.
Mentalizados os pontos e seu entorno, os desenhamos no papel pardo (Foto 3). Ao expressar as idéias através de formas, cores e movimentos, tornamos mais papável o ambiente em que se vive, fazendo com que o imaginário chegue ao real e o real ao imaginário.
 
Desenho das casas dos participantes localizados no Mapa da Ilha.
 
Com os pontos bases referenciados no mapa, fomos complementando o "mapa da ilha" com outros locais de significado na comunidade para eles: Ponta sul da ilha, Estrada, Posto de Saúde, Escola, Creche Marista, Igreja, Campo de futebol, COOPAL etc.
Fez-se a seguinte pergunta: "Se uma visita viesse passear por um dia aqui, quais os locais que vocês gostariam de levá-la?" Com esta questão pretendeu-se também fazer um gancho para a oficina de trilhas, esboçando alguns dos prováveis locais de parada na trilha.
É interessante notar que apenas os locais construídos e de uso coletivo, as edificações sociais e educativas, foram assinalados como os principais pontos.
Uma das participantes explica o porque de suas escolhas: "As coisas importantes para mim são as que eu participo, que vou: Clube das Mães e Creche (Colégio Marista)". O mesmo pode ter sido observado na dinâmica de apresentação no início do encontro onde os nomes foram relacionados às edificações em sua maioria. De acordo com Milton Santos
"A cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre o homem e seu meio, um resultado obtido através do próprio processo de viver. Esta não provém do simples fato de viver, mas da comunhão com que se faz com ele" (SANTOS 1987).
Podemos considerar aqui uma maior comunhão com o lado cultural edificado da ilha do que com a natureza, e afirma-se que quanto mais explorado, quanto mais técnicas, mais construções e urbanização, mais o espaço natural deixa de ter importância em sua forma, tendo uma relação abstrata e distante com o atual (GEORGE 1969).
No segundo encontro exploramos o Atlas Ambiental de Porto Alegre, retomando as questões socioambientais. Ampliamos nossa discussão sobre o lago Guaíba e o Delta do Jacuí, nos direcionando a Ilha, ao ambiente frágil em que estão inseridos, a importância da proteção das margens e a problematização prática no cotidiano da degradação destas águas. "Navegamos" pelas páginas do Atlas nas águas dos demais rios que compõe o Delta, de onde vem, por onde passam e como são cuidadas ou não. Investigamos o bairro Arquipelágo, que muitos não sabiam que fazem parte dele.
Para a situação das Unidades de Conservação (UC) fizemos uma retomada do histórico da ilha baseada nas vivências e histórias de cada, verificando como se deu a ocupação do local. Discutiu-se o conceito, as permissões e as restrições de um Parque e de uma APA, e com símbolos definidos por todos e palavras fomos relacionando cada item a UC respectiva. Levantou-se o uso feito pelas diferentes classes sociais e suas atividades na Ilha Grande dos Marinheiros, das diferenças nas épocas de cheia e de seca, das especificidades do ambiente e de sua importância para toda a região, das facilidades em ter maior infra-estrutura e em como ter esta aliada à conservação da natureza, e conseqüentemente o porquê de discutirmos isso tudo e dos interesses de cada e do poder público em ser Parque ou APA.
Retomamos o "mapa da ilha" abrindo a conversa sobre o significado dos locais coletivos construídos assinalados por eles e também da importância da natureza. Inserirmos, então, outros pontos como: Ponta norte da Ilha, Lago Guaíba, Árvores, Passeio de barco e Locais de pescaria (Foto 4).
 
Trilha na ponta Norte da Ilha.
 
Finalizamos os encontros de EA com uma conversa avaliadora dos temas investigados onde as situações propostas, mesmo no restrito tempo de duas noites, permitiram aos participantes conhecer melhor a Ilha Grande dos Marinheiros, local onde vivem. Acreditamos que a reflexão quanto à importância do ambiente social e natural na apropriação do local por cada um, ampliando a consciência coletiva, despertando-os para cidadãos comprometidos e responsáveis ao avaliar suas interferências e as dos outros no meio e, com isso, desempenhar o verdadeiro papel político que lhes cabe na busca de caminhos para uma vida mais qualificada, foi aprofundada nesta interação da extensão acadêmica com a comunidade.
 
TRILHA
Foi trilhando teus caminhos?
Foi com a Ilha como tua bússola?
 
Na oficina de trilha, objetivou-se a interação do residente com o seu meio, estimulando a expressividade e o sentimento da importância local em suas características naturais e históricas e das suas manifestações culturais. As trilhas são instrumentos efetivos da vivência com o meio, de interação com o local por onde passamos e nos desperta para os contrastes e nuanças da paisagem. Esse despertar propicia elementos para o desenvolvimento da educação e do lazer, apresentado de forma real e lúdica o ambiente e os fatos aos residentes-visitantes, colocando a realidade para ser vivida pela pessoa, contribuindo para uma visão crítica dos problemas socioambientais e coletivos locais.
A interação consciente e constante com nosso espaço comum, com nossa comunidade, possibilitada em uma trilha, provoca a visualização e avaliação das ações que realizamos para o todo e para a compreensão da mesma e do ambiente em que vivemos. Esta compreensão traz a identificação real do espaço e da cultura local além de propiciar um momento de reflexão que pode gerar atitudes capazes de afetar comportamentos e posturas políticas.
Ao planejarmos a trilha precisamos contemplar estes objetivos e preocuparmos em potencializar nossos atrativos com a minimização de nossos impactos negativos, de modo a termos uma atividade em harmonia com a natureza e com valorização da cultura.
Para delimitar o roteiro da trilha partiu-se do mapa com os pontos relevantes levantados pelos participantes nos encontros de Educação Ambiental (EA) e das questões e reflexões de interação e identificação do meio.
Partimos para a trilha, mapeando os pontos em um novo papel e descrevendo considerações e interpretações a respeito dos pontos de parada.
A idéia inicial foi de irmos coletando objetos pertencentes e não pertencentes à natureza para depois juntarmos ao mapa e termos a visualização dos elementos que compõe o ambiente. Ainda nesta idéia, posterior a reflexão socioambiental com os elementos, estes podem construir instrumentos musicais ou um mural como finalização da oficina.
Ao término da trilha, retornamos a escola para uma avaliação do trajeto, sua duração, sua motivação, os pontos que todos gostaram mais e as facilidades de acesso. Levantamos à proposta de transformar essa trilha em um produto turístico e agenciar visitas guiadas pelos próprios residentes gerando uma nova frente de trabalho.
A partir desta idéia do produto turístico, discutimos o número limite aceitável de visitantes (capacidade de suporte) na trilha e a importância de uma conversa sensibilizadora sobre o ambiente antes de iniciar o passeio, buscando garantir a qualidade da experiência de todos bem como a sustentação do ambiente. Algumas paradas foram descartadas pela dificuldade de acesso ou pela similaridade dos atrativos, outras foram incluídas no traçado para diversificar, como um trajeto de barco com uma parada em uma outra ilhota sem ocupação humana.
A questão do monitor/condutor para a trilha foi estabelecida como um canal de comunicação, de ensino-aprendizagem, com este processo compreendido em movimento interativo e dinâmico, onde sempre que se ensina se aprende e sempre que se aprende se ensina, e de uma relação afetiva entre o intérprete e os visitantes, essencial para a compreensão e o melhor resultado da vivência.
Atualmente o turismo responsável vem sendo uma alternativa de valorização ambiental e social, de promoção da conservação do meio, de difusão da educação conservacionista e de retorno socioeconômico para a população e para o desenvolvimento local.
Na Ilha Grande dos Marinheiros tais premissas do turismo responsável podem ser contempladas em sua realidade. A Ilha Grande dos Marinheiros reúne características favoráveis para o desenvolvimento da atividade em sua história viva da ocupação da Ilha com suas relações humanas e seus impactos ambientais; em seu ecossistema local com o delta em sua geografia e ambiente de transição natural-urbano; sendo uma Unidade de Conservação; e com sua comunidade já articulada nas questões referentes à conservação da natureza local e políticas públicas, com autonomia na organização em grupo e habilidade para realizar a interface turista - comunidade. Somando a isto, ainda tem localização privilegiada próxima do grande centro da cidade; infra-estrutura para lazer já existente como o Clube do Grêmio e as potencialidades que os membros da COOPAL têm manifestado no trato com as questões ambientais junto à capacidade que têm de articulação e discussão coletivas, com a assessoria da Universidade e de outras instituições.
Contudo, sem um planejamento participativo da comunidade e o desejo manifesto de interesse destes, o que exige envolvimento e monitoramento contínuo com medidas mitigadoras associadas no manejo dos atrativos e da trilha, e sem o poder público em parceria no desenvolvimento das ações, essa mesma atividade pode apresentar problemas sérios tanto ambientais como sociais. Dentro desse quadro, existe o risco de aumento da individualidade e da competitividade na busca de "pegar o turista", a desestruturação das relações sociais e familiares em frente às relações momentâneas com os turistas e de valorização única do que o turista traz, causa degradação ambiental advindos do crescimento do fluxo turístico com o aumento da produção de lixo e esgoto, compactação e erosão do solo pelo pisoteio e trânsito de veículos, entre outros.
O turismo em geral é um fator de valorização dos lugares, pois leva para estes locais a promoção do simbólico e da conservação da natureza e novas fontes de receita e de empregos. Por outro lado, sem planejamento exerce pressão sócio-cultural nas sociedades residentes das regiões receptoras, incidindo sobre o modo de vida e o comportamento das mesmas, conforme discuti Cazes.
Em 2005 realizou-se a trilha com visitantes e estudantes de curso de Turismo. A repercussão foi muito positiva na comunidade com os turistas valorizando o local e gerando renda para a condutora, para o barqueiro e para a cozinheira do lanche, e mostrando a real possibilidade de uma nova frente de trabalho digno.
 
Educação Ambiental e Trilhas
Quem te ensinou a nadar?
Foi o balanço das águas e o conhecimento da vida?
 
Entendemos por Educação Ambiental (EA) o conjunto de práticas e reflexões que se propõem a dialogar as inter-relações do indivíduo e da comunidade com o ambiente, tornando-as mais conscientes, tanto a nível local quanto global e fortalecendo a identidade local com o reconhecimento e a valorização de suas tradições e cultura. A EA coloca-se dentro de uma concepção de construção interdisciplinar do conhecimento, visando à consolidação da cidadania com cooperação aos seus semelhantes e ao ambiente, a partir de conteúdos problematizadores vinculados ao cotidiano e aos interesses da população, originando formas de organização de comunidade solidárias e relações responsáveis com o meio ambiente, bem como soluções diversificadas que não dependem apenas de recursos econômicos, mas que impliquem uma remodelação do processo de vida.
Para esta remodelação é essencial termos a compatibilização com as legislações ambientais em políticas orientadas para um envolvimento sustentável, que estimulem a infra-estrutura adequada aos recursos e as produções locais. Também uma gestão do meio ambiente integrada com outros setores, como a saúde e a democratização das informações. O querer deste trabalho é propiciar a participação efetiva da população na gestão em sua comunidade, ampliando seus horizontes "profissionais" e contemplando uma melhoria da qualidade de vida de todos envolvidos. Pois conforme Milton Santos, a realidade ao mudar muda também seu observador.
Em relação aos princípios e fins de educação nacional os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) destacam que:
 
"(...) a principal função do trabalho com o tema Meio Ambiente é contribuir para a formação de cidadãos conscientes, aptos para decidirem e atuarem na realidade sócio ambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade local e global" (MEDINA & NUNES in Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 1998, p. 10).
 
Nesse sentido, é necessário que, mais do que informações e conceitos, a EA se proponha a trabalhar com atitudes, formação de valores, com o ensino e a aprendizagem de habilidades e de procedimentos. Trata-se, portanto, da construção de uma nova visão nas relações do homem com o seu meio e da adoção de novas posturas pessoais e coletivas.
Segundo a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul (1998), para a educação o mais importante são os processos e não os produtos, e para que isso ocorra deve-se envolver os educandos, e especificamente os do Bairro Arquipélago, em:
  • "Resgatar a identidade cultural do aluno como ilhéu, integrando-o ao meio em que vive, desenvolvendo nele o gosto e o respeito à natureza e a valorizando de seu ambiente natural e social";
  • "Avaliar criticamente as transformações ocorridas e seus reflexos no ambiente, no decorrer do processo histórico de ocupação do local, bem como a projeção de cenários para o futuro" (SILVEIRA & SCHMIDT in Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, 1998, p. 34).
As trilhas interpretativas e a educação ambiental (EA) se fundem na prática. A interpretação ambiental realizada em uma trilha se constitui em um importante instrumento didático em EA propiciando a (re)descoberta do ambiente, com a investigação e a percepção dos fenômenos e das inúmeras relações existentes entre os seres vivos, sua história e o meio local, ao mesmo passo em que provoca um sentido de maravilha importante para o despertar de uma conduta conservacionista. A utilização de trilhas de interpretação ambiental, planejadas de modo a oferecer mais possibilidades de contato com o meio, é um excelente suporte para o desenvolvimento de habilidades como a observação, caracterização e avaliação da realidade local.
O modo da exploração do espaço em que vivemos é totalmente influenciado pela cultura da sociedade que o ocupa, e retorna na mesma influência para a mesma sociedade delimitando toda sua organização. Nesta roda de influências, temos tido uma pressão forte do ambiente construído sobre o ambiente natural cru. Estas pressões diárias levam a tendência ao sentimento constante de insatisfação, a competição desleal entre os seres em busca de um poder ganancioso com a inversão dos valores morais, ao mesmo tempo em que gera grande desejo de contato com a natureza. Este contato é vital para nosso equilíbrio e para revertermos este quadro, precisa se dar com tato e com consciência dos nossos atos para o exercício da nossa cidadania, do coletivo comum e da nossa interação harmoniosa com o meio.
 
Conclusão:
 
Acreditamos que o que torna relevante este trabalho é sobretudo ter desafiado a Universidade a tornar prática as idéias defendidas pela academia em especial a questão ambiental ligada à produção da vida ou seja o empoderamento das comunidades que habitam áreas protegidas a partir do desenvolvimento local e uma outra coisa importante é o saber escutar as comunidades quando essas demandam intervenções de áreas do conhecimento em sua realidade de forma interdisciplinar e não impondo um modelo autoritário de interdisciplinaridade que na prática nada mais é do que um amontoado de disciplinas.
Mas a figura do agente social, conforme este trabalho apresenta baseado em Paulo Freire, não se nega a apresentar seu conhecimento é a forma que ele faz isso é que fará a diferença. Pode ser de forma autoritária, impositiva (educação bancária) ou pode ser dialogada, trocando conhecimentos em busca de uma terceira via (dialógica). Cremos que nossa intervenção na Ilha Grande dos Marinheiros foi fiel a esta assertiva, pois conforme relatamos ao iniciarmos o Curso de Extensão havia sido recém decretada a transformação de grande parte do Parque Estadual Delta do Jacuí em APA. Nós problematizamos esta decisão de cima para baixo do governo estadual com todo cuidado para não ferir as expectativas da comunidade. Colocamos questões. Hoje, a comunidade reconhece que a ação do governo era mera politicagem, pois até agora (2006) não foi formado o Conselho gestor da APA (Área de Proteção Ambiental).
Acreditamos que foi possível trabalhar o (re)conhecimento e valorização do espaço em que se vive, sua história e suas tradições, seu comportamento frente à preservação e à degradação ambiental. Isto vem na compreensão que o meio ambiente é um direito de todos e que sua proteção é um dever a ser partilhado, pois afinal só se preserva aquilo que se ama e só se ama aquilo que se conhece. Por fim, acreditamos que novas frentes de geração de renda foram oportunizadas ampliando os horizontes profissionais e que serviu para instrumentalizar os atores (em especial a COOPAL) na sua luta cotidiana por condições dignas de habitar e viver em comunidade.
 
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